sexta-feira, 13 de junho de 2014

Dueto


Eu, só... sou inutilmente só.
Enquanto todos bebem e cantam e festejam a páscoa
De um qualquer que voltou à vida,
Continuo só...
Não trazem para si a mensagem que diz
Que o amor é mais importante.
Apedrejam-me sempre.
Apedrejam-me muito...
Enquanto os meus versos me contradizem,
Dizendo a verdade
Que não sou capaz de proferir.

Tudo, mesmo as cores dantes
coloridas e alegres
tornaram-se feias aquarelas
pintadas de negro e com
cheiro de necrochorume...
As rosas que antes me pareciam
grandiosas hoje possuem rostos
vultuosos cheios de marca de tempo
e choro nas faces...
Como doí meu peito que clama
com o ultimo suspiro preso
pela morte...

Mas nenhum humano me aparece nesse momento;
São todos superiores a mim.
Nenhum vê seus erros,
Mas percebe, critica e julga os acertos dos outros.
Se erro por ser eu mesmo,
Acerto por não ser outra pessoa.
Mas, nessa hora,
Não chega sequer uma pessoa que me console dizendo-me que é humana
Nenhuma que mostre suas feridas
E prove tua dor...
Pois uma espada transpassa o ser
Quando outra pessoa se declara errada.
É praticamente impossível alguém ver seus próprios erros,
E quando chega na glória de sua humanidade,
Quando vê os erros que cometeu,
É totalmente impossível assumir-se que errou.
Totalmente impossível com todos os 'Is' que puderes imaginar...
É IMPOSSÍVEL.
E este impossível,
Faz minha dor ser concreta.
Já não bastava ser abstrata...
Era necessário que se tornasse concreta.
"A vida não é lá essas coisas."
Ah, me chamam de louco quando digo isso.

O mundo me fechou as portas
as janelas que dantes sorriam abertas
e bebericavam um punhado de luz
foram fechadas...
Paredes entre eu e a felicidade foram
erguidas. Todo o sorriso foi pela tristeza mortal
d'alma foram engolidos. Meus amigos dantes
vivo, hoje jazem no gelo mortal da terra
que não diz nada.
As mazelas da vida me atingiram...
Que posso fazer, a não ser desejar
"Morte, como o que resta da carne!"

Minha vida não tem mais sentido...
Como nunca teve.
Para que viver?
Para que sofrer nesse mundo onde todos são santos
E os verdadeiros são devedores?
Eu e a poesia
Topamos um dueto.
Entrego-a sua espada
(As palavras)
E pego a minha
(A caneta)...
No papel,
Dou ataques graves;
As palavras são pesadas.
Numa luta toda amorosa e humanamente abstrata,
A poesia me mata...
Me mata de desgosto.
Morri pela espada da poesia:
Eis aí a prova de que palavras são fatais.

Agora clama minha alma pelas lamas
do fim... Vou eu deitar-me com os ossos de
meus pais. Poderei enfim ouvir o escárnio
do demônio que vive nas sombras,
a única companhia que quero pela eternidade.
Só clamo que nessa negra vida nunca tive
amor correspondido, mas isso não impedirá
a faca que lamberá o ultimo sangue pulsante
que escorrerá do meu pescoço.
Que me aguarde o fogo do inferno,
onde terei companhias mais felizes e mais quentes
do que aos falsos rostos humanos.
"Aguardo-te sombra que come sombra,
morte canibal..."
O fim será meu consolo, será o último público
do meu sorriso de Pierrot. Morra Colombina,
o mesmo inferno aguarda a ti e ao Arlequim.
Adeus...

Borba Figueiras — heterônimo de Simon-Poeta e Josué D'Brytto

Sua Opinião:

0 comentários:

Enviar um comentário