sexta-feira, 13 de junho de 2014

Desacordo mundano


O mundo gira.
Sim, ele gira.
As pessoas devem estar girando ao lado contrário;
Ou teria outra explicação para tanto desacordo?
O eixo do mundo roda para a direita,
E os humanos, em desacordo, rodam para a esquerda.

O mundo sofre tanto com as pessoas.
As manchas de pés que lutam para girar ao contrário
Ferem e mancham o manto da terra.
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Como numa escada rolante
Qu'inda desce do mesmo modo
que descia no início do dia;
Que foi feita para levar o homem de cima para baixo,
Que o homem desafia tentando subir.
Se ele está na mesma velocidade da escada,
Permanece ali.
Anda, anda, anda,
Mas não sai do lugar.

Andar e sair do lugar são coisas diferentes;
Como uma esteira, que faz o homem emagrecer
A custa do cansaço e do suor.
Esteira que faz o homem correr, andar e correr
Para não chegar a lugar algum.

Muitas pessoas andam na vida. Outras, tomam atitude e resolvem sair do lugar.
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O mundo continua girando ao contrário,
E o homem continua massacrando os mantos,
Sejam eles duros, como pedra,
Ou úmidos e frios, como água.
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O mundo gira e o desacordo do ser humano
Deixa o mundo desacordado.

O mundo dorme...
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O mundo dorme enquanto o homem o acaricia com enxadas,
O carinha com pregos e martelos,
O ama com fogueiras.
O mundo dorme enquanto o homem mata o outro,
Enquanto o homem mata as outras,
Enquanto o homem se mata.

O mundo dorme,
E o acorde desse desacordo,
Só será tocado quando acordar,
Depois de ter desacordado quem estava atento.
Atentado quem estava triste.
Entristecido quem estava feliz.
Felicitado quem estava alegre.
Alegrado quem estava sozinho como qualquer cousa.
Cousificado quem estava sem ocasião.
Ocasionado quem estava sem lugar algum para ir.
Oferecido festas a quem não tinha condições.
Condicionado quem estava pobre e imbecil.

O mundo só acordará depois que o homem for humano
E deixar de ser uma coisa qualquer e esquisita
Que não merece levar o nome de animal, ameba ou verme
E sim, a ofensa de humano.

Borba Figueiras — heterônimo de Simon-Poeta

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