sexta-feira, 13 de junho de 2014

De fato


Às vezes, quando tiro minha roupa
E me vejo nua,
Imagino que tudo aquilo poderia ser diferente.
Várias coisas são necessárias para que uma aconteça.
O acordar, às seis da manhã,
O café às seis e trinta,
O banho, logo depois do café, às seis e quarenta...
Tudo isso faz parte da rotina.
Tudo isso faz parte do dia a dia.

E se eu me atrasasse um minuto ao acordar?
Ficaria um minuto atrasada em todas essas coisas
—não consigo apressar o café, nem o banho—.
Daí, sairia para o trabalho às seis e cinquenta e um,
—Cinco minutos antes do horário de saída do bondinho da Vila Mariana.—
Apressada, saio como uma doida, correndo na rua.
Às seis e cinquenta e seis
Chego na Vila Mariana e veja o bondinho saindo.
Petrificada, saio correndo atrás do bonde que me deixou.
Grito, pulo, bato na lateral do bonde
E o motorista não vê, nem sequer sente minha falta.

Assim que viro as costas para voltar para casa
Meu irmão, Horácio, me oferece carona no seu carro.
Eu, boa funcionária que sou,
Aceito.

Chegando na fábrica de corte e costura,
Todas me olham estranhamente...
Sim, estão perplexos com meu atraso.
Não respondo nada,
Continuo andando até a máquina em que costumo ficar.
Quando chego lá,
Já está ocupada...
—Olá, tudo bem, Marieta? Eu me acostumei com essa máquina. Será que poderia me deixar ficar nela?
—Não.
—Como assim, não?!
—Não. Você chegou atrasada. Vai ficar em uma máquina pior...
—Você não está entendendo... essa máquina é minha.
—Não. É da fábrica.
—Eu fico nela todos os dias há quinze anos.
—Bom, vai ficar um dia sem ela.
Me irritei com Marieta.
Ela me olhou e sorriu com deboche...
Não suporto mais isso.
Ela me quer fora dessa fábrica;
Quem deve ficar sem trabalho é ela.

—Tesoura... cadê a tesoura?— Pergunto-me.
—Achei!— Respondo-me.

Vou delicadamente ao local em que Marieta está
E como quem nada queria,
Abraço-a...
—Marieta, perdoe-me. A culpa foi minha.
E a cínica tem coragem de me olhar como quem nada entendeu.
—Você me perdoa?
Ela me olhou e sorriu.
Ah, não aguentei! Um ser maligno tomou conta de mim...
Enfiei a tesoura na coluna da rapariga.

Ela gritou
e eu saí.

O sangue da vaca estava na tesoura,
Limpei-o com a parte interior do meu vestido
E continuei andando pela fábrica
como se nada tivesse acontecido.

As mulheres foram todas correndo para ver o que aconteceu com Marieta...
Quando lá chegaram, ela estava ensanguentada.
Então, por impulso, gritaram:
—Foi Diana! — sim, este é meu nome.
E saíram correndo atrás de mim,
Mas eu permaneci ali,
Fria e cálida.
Mais fria que uma geleira ártica,
E mais cálida que um bebê no colo da mãe.

Elas apontavam o dedo na minha cara e diziam:
—Assassina!, Piranha!, Vadia!;
Marieta era a preferida delas,
Sempre desconfiei...

Então, saí da fábrica para a delegacia
E lá me entreguei.
Os policiais não queriam me prender,
Não sei porque... acho que por pena.
Então, voltei para minha casa.

Despi-me,
Sentei na poltrona e pus-me a olhar para a janela
—não para o exterior da casa, mas para a janela em si—.
Pensei comigo mesma:
— De fato, hoje estou agressiva. Acho que é por causa do atraso...

Se não tivesse atrasado um minuto,
Teria tudo ocorrido como sempre...
Estaria calma e bem humorada
Pois não teria brigado com meu irmão enquanto me lavava para o trabalho,
Marieta não estaria em meu lugar
E eu não a mataria.

Tudo na vida é questão de tempo.
O tempo é o maior deus que existe
—quiçá o único?—
Até os ateus acreditam no tempo,
Até os cientistas e físicos acreditam nele...

Segundos de atraso ou adianto na vida
Podem levar a milhares de anos de desgraças ou alegrias.

Quando me peguei pensando nisso,
Já era noite...
Levantei-me da poltrona
e pensei comigo mesmo:
—Ufa! Sorte minha que isso é só um pensamento...
Essa é uma das vantagens de não trabalhar.

Dormi às vinte horas
—como sempre—.
E o desfecho do dia
Aconteceu normalmente.

Abigail Balbina — heterônimo de Simon-Poeta

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